Publicado originalmente na revista Popa
Quem disse que Popa não pode ser visionária? Se assim o fosse, o professor e poeta Paulo Seben não aventaria meu nome para escrever aqui. De fato, olharei adiante, irei até o futuro e o trarei aos senhores que me lêem.
O futuro literário, bem entendido. Já se chorou pela música, quando surgiu o rock; hoje, vê-se a tolice desse lamento. Ninguém lamenta a obra-hit ou o escritor-celebridade, nas felizes mutações que a categoria (curso superior de ficcionista e oficinas literárias) vem sofrendo. É um tanto ingênuo chorar pela arte: arte é mercado, e dos bons. O autor não morreu, está bem vivinho. O autor é a obra. Todos sonham em ser Carpinejar, ou em tirar uma foto ao seu lado, e, por sua vez, um dia Carpinejar quis ser Lady Gaga.
Como eu gostaria de ser Carpinejar, ou Lady Gaga! Então, pintaria as unhas ou vestiria uma fantasia de carnaval, mostraria o humor nos dramas matrimoniais, faria as pessoas rirem de seus infortúnios, ou cantaria feito um louco. Mas a glória maior para um escritor ou para um cantor de multidões é aparecer na grande mídia. Ambos têm de ser descolados. Não é fácil conquistar um Jô. Prometi trazer-lhes o futuro da literatura? Pois bem, menti-lhes. Mas não fiquem brabos comigo. Digo-lhes que, num futuro não muito distante, o escritor figurará nas páginas de revistas destinadas a informar o público sobre a vida das celebridades da televisão. Todos têm direito ao autor, é uma necessidade humana. Assim, os escritores terão, finalmente, alcançado seu sonho, o de ser Lady Gaga. Quanto à literatura, nada lhes direi, pois minha bola-de-cristal anuviou-se quando tentei perscrutá-la.
O indivíduo que quiser ser famoso, ser escritor, deverá, antes de mais nada, pintar o cabelo de laranja, ou, quando da publicação de sua obra, passar uns três dias dentro de um cubo transparente, na livraria, a fim de amealhar fãs – o fã é o leitor do futuro, que fique claro aos que não entenderam. No entanto, haverá, obviamente, os que não conseguirão compor uma obra-hit, não alcançando o sonho de ser celebridade (a despeito das madeixas escandalosas). Estes, ardilosos, descobrirão caminhos nesse meio que os leve à glória: uma maratona literária, onde a reflexão é vilipendiada, colocará seu mentor diante dos holofotes da mídia, e uma taça de champanhe em suas mãos, na abertura da vigésima tanta edição do evento.
Posso ver uma fã de literatura derretendo-se diante do mais novo pop star do ramo: “Ai, ele é tão escritor!” Será belo e empolgante. Mas fico por aqui: tenho hora na manicure.
Naziazeno
quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Sinhá Bolsa
Era o primeiro dia de trabalho do jovem estudante universitário na divisão de ... Bem, em uma divisão qualquer da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Por chegar cedo, adiantara-se aos dois chefes que teria na Seção; sentou-se, no corredor abafado – que já principiava a pôr gotas de suor em sua testa -, nos assentos de espera. Ali já estava outro jovem com cara de tolo. Descobriu que era seu colega, e que também ele aguardava os superiores com as chaves da sala, para começar o mister.
“Que terá havido, para justificar semelhante atraso?”, perguntou o novato, após quinze minutos de espera.
“Não. Eles só chegam depois das nove. É isso todo dia.”
Tais palavras causaram impacto no rapaz. Não tanto pelo atraso rotineiro dos chefes, mas pela pontualidade do bolsista. Após alguns instantes de remoída ansiedade, Plínio, o novo bolsista, não agüentou mais, e perguntou: “Mas, então, por que chegas à hora certa? Por que não dormes mais um pouco, toda manhã?”
“Não dá”, respondeu, “eles, os chefes, informam-se, na portaria, do horário da nossa chegada”. Não houve mais perguntas.
Por chegar cedo, adiantara-se aos dois chefes que teria na Seção; sentou-se, no corredor abafado – que já principiava a pôr gotas de suor em sua testa -, nos assentos de espera. Ali já estava outro jovem com cara de tolo. Descobriu que era seu colega, e que também ele aguardava os superiores com as chaves da sala, para começar o mister.
“Que terá havido, para justificar semelhante atraso?”, perguntou o novato, após quinze minutos de espera.
“Não. Eles só chegam depois das nove. É isso todo dia.”
Tais palavras causaram impacto no rapaz. Não tanto pelo atraso rotineiro dos chefes, mas pela pontualidade do bolsista. Após alguns instantes de remoída ansiedade, Plínio, o novo bolsista, não agüentou mais, e perguntou: “Mas, então, por que chegas à hora certa? Por que não dormes mais um pouco, toda manhã?”
“Não dá”, respondeu, “eles, os chefes, informam-se, na portaria, do horário da nossa chegada”. Não houve mais perguntas.
Modinha do bolsista de pesquisa literária
Eu sou melancólico como um vendedor de pastilhas,
sou quase tão triste como um homem que usa cachecol.
Passo o dia inteiro pensando na fama e na glória
mas só ouço o tisc-tisc das línguas dos professores.
Lá fora chove e a placa de Ernesto fica azinhavrada.
Quantas meninas pelo Vale afora!
E eu dissecando no papel os textos dos outros.
Se eu tivesse escrito esses contos punha-me a pular
e a rodar admirado no cânon da literatura da cidade.
E essas meninas iriam à Livraria
beber vinho, pedir-me autógrafos e fotos para o Face.
Também se não me fosse vital o estipêndio
o professor e o CNPq já teria chutado
e estaria agora noutro lugar.
sou quase tão triste como um homem que usa cachecol.
Passo o dia inteiro pensando na fama e na glória
mas só ouço o tisc-tisc das línguas dos professores.
Lá fora chove e a placa de Ernesto fica azinhavrada.
Quantas meninas pelo Vale afora!
E eu dissecando no papel os textos dos outros.
Se eu tivesse escrito esses contos punha-me a pular
e a rodar admirado no cânon da literatura da cidade.
E essas meninas iriam à Livraria
beber vinho, pedir-me autógrafos e fotos para o Face.
Também se não me fosse vital o estipêndio
o professor e o CNPq já teria chutado
e estaria agora noutro lugar.
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
O caráter destrutivo
1931
Walter Benjamin
É possível que alguém, ao fazer um retrospecto de sua vida, verifique que quase todas as ligações mais profundas que ele experimentou, tenham partido de indivíduos sobre cujo "caráter destrutivo" todo o mundo estava de acordo. Esbarraria um dia, talvez casualmente, nesse fato, e quanto mais duro fosse o choque, tanto maiores seriam suas chances de representar o caráter destrutivo.
O caráter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar espaço; conhece apenas uma atividade: abrir caminho. Sua necessidade de ar puro e de espaço é mais forte do que qualquer ódio.
O caráter destrutivo é jovem e sereno. Pois destruir rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade; reanima, pois toda eliminação significa, para o destruidor, uma completa redução, a extração da raiz de sua própria condição. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor é, antes de mais nada, o reconhecimento de que o mundo se simplifica terrivelmente quando se testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.
O caráter destrutivo está sempre atuando bem disposto. A natureza lhe prescreve o ritmo, pelo menos indiretamente: pois ele deve adiantar-se a ela, do contrário ela própria assumirá a destruição.
O caráter destrutivo não se fixa numa imagem ideal. Tem poucas necessidades, e a menos importante delas seria: saber o que ocupará o lugar da coisa destruída. Primeiramente, pelo menos por um instante, o espaço vazio, o lugar onde se encontrava a coisa, onde vivia a vítima. Certamente vai aparecer alguém que precise dele, sem ocupá-lo.
O caráter destrutivo executa seu trabalho, evitando apenas trabalhos criativos. Assim como o criador busca a solidão, assim também o destruidor precisa cercarse continuamente de pessoas, de testemunhas de sua eficácia.
O caráter destrutivo é um sinal. Assim como um sinal trigonométrico está exposto ao vento, de todos os lados, assim também ele está exposto, por todos os lados, aos boatos. Não tem sentido protegê-lo contra isso.
O caráter destrutivo não tem o mínimo interesse em ser compreendido. Considera superficiais quaisquer esforços nesse sentido. O fato de ser mal entendido não o afeta. Ao contrário, ele provoca mal entendidos, assim como o faziam os oráculos - essas instituições políticas destrutivas. O fenômeno mais pequeno-burguês, o falatório, só acontece porque as pessoas não querem ser mal entendidas. O caráter destrutivo não se importa de ser mal entendido; ele não fomenta o falatório.
O caráter destrutivo é o inimigo do homem-estojo. O homem-estojo busca sua comodidade, e a caixa é sua essência. O interior da caixa é a marca, forrada de veludo, que ele imprimiu no mundo. O caráter destrutivo elimina até mesmo os vestígios da destruição.
O caráter destrutivo se alinha na frente de combate dos tradicionalistas. Uns transmitem as coisas na medida em que as tomam intocáveis e as conservam; outros transmitem as situações na medida em que as tornam palpáveis e as liquidam. Estes são chamados destrutivos.
O caráter destrutivo tem a consciência do indivíduo histórico cuja principal paixão é uma irresistível desconfiança do andamento das coisas, e a disposição com a qual ele, a qualquer momento, toma conhecimento de que tudo pode sair errado. Por isso, o caráter destrutivo é a confiabilidade em pessoa.
O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas, por isso mesmo, vê caminhos por toda a parte. Mesmo onde os demais esbarram em muros ou montanhas, ele vê um caminho. Mas porque vê caminhos por toda a parte, também tem que abrir caminhos por toda a parte. Nem sempre com força brutal, às vezes, com força refinada. Como vê caminhos por toda a parte, ele próprio se encontra sempre numa encruzilhada. Nenhum momento pode saber o que trará o próximo. Transforma o existente em ruínas, não pelas ruínas em si, mas pelo caminho que passa através delas.
O caráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida vale a pena ser vivida, e sim de que o suicídio não compensa.
Walter Benjamin, "Der Destruktive Charakter", in: G.S., IV , pp. 396-98.
Edição brasileira: BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. Seleção e apresentação Willi Bolle; tradução Celeste H.M.Ribeiro de Sousa (et al.). São Paulo, Cultrix/Edusp, 1986. pp.187-188.
Walter Benjamin
É possível que alguém, ao fazer um retrospecto de sua vida, verifique que quase todas as ligações mais profundas que ele experimentou, tenham partido de indivíduos sobre cujo "caráter destrutivo" todo o mundo estava de acordo. Esbarraria um dia, talvez casualmente, nesse fato, e quanto mais duro fosse o choque, tanto maiores seriam suas chances de representar o caráter destrutivo.
O caráter destrutivo conhece apenas uma divisa: criar espaço; conhece apenas uma atividade: abrir caminho. Sua necessidade de ar puro e de espaço é mais forte do que qualquer ódio.
O caráter destrutivo é jovem e sereno. Pois destruir rejuvenesce, porque afasta as marcas de nossa própria idade; reanima, pois toda eliminação significa, para o destruidor, uma completa redução, a extração da raiz de sua própria condição. O que leva a esta imagem apolínea do destruidor é, antes de mais nada, o reconhecimento de que o mundo se simplifica terrivelmente quando se testa o quanto ele merece ser destruído. Este é o grande vínculo que envolve, na mesma atmosfera, tudo o que existe. É uma visão que proporciona ao caráter destrutivo um espetáculo da mais profunda harmonia.
O caráter destrutivo está sempre atuando bem disposto. A natureza lhe prescreve o ritmo, pelo menos indiretamente: pois ele deve adiantar-se a ela, do contrário ela própria assumirá a destruição.
O caráter destrutivo não se fixa numa imagem ideal. Tem poucas necessidades, e a menos importante delas seria: saber o que ocupará o lugar da coisa destruída. Primeiramente, pelo menos por um instante, o espaço vazio, o lugar onde se encontrava a coisa, onde vivia a vítima. Certamente vai aparecer alguém que precise dele, sem ocupá-lo.
O caráter destrutivo executa seu trabalho, evitando apenas trabalhos criativos. Assim como o criador busca a solidão, assim também o destruidor precisa cercarse continuamente de pessoas, de testemunhas de sua eficácia.
O caráter destrutivo é um sinal. Assim como um sinal trigonométrico está exposto ao vento, de todos os lados, assim também ele está exposto, por todos os lados, aos boatos. Não tem sentido protegê-lo contra isso.
O caráter destrutivo não tem o mínimo interesse em ser compreendido. Considera superficiais quaisquer esforços nesse sentido. O fato de ser mal entendido não o afeta. Ao contrário, ele provoca mal entendidos, assim como o faziam os oráculos - essas instituições políticas destrutivas. O fenômeno mais pequeno-burguês, o falatório, só acontece porque as pessoas não querem ser mal entendidas. O caráter destrutivo não se importa de ser mal entendido; ele não fomenta o falatório.
O caráter destrutivo é o inimigo do homem-estojo. O homem-estojo busca sua comodidade, e a caixa é sua essência. O interior da caixa é a marca, forrada de veludo, que ele imprimiu no mundo. O caráter destrutivo elimina até mesmo os vestígios da destruição.
O caráter destrutivo se alinha na frente de combate dos tradicionalistas. Uns transmitem as coisas na medida em que as tomam intocáveis e as conservam; outros transmitem as situações na medida em que as tornam palpáveis e as liquidam. Estes são chamados destrutivos.
O caráter destrutivo tem a consciência do indivíduo histórico cuja principal paixão é uma irresistível desconfiança do andamento das coisas, e a disposição com a qual ele, a qualquer momento, toma conhecimento de que tudo pode sair errado. Por isso, o caráter destrutivo é a confiabilidade em pessoa.
O caráter destrutivo não vê nada de duradouro. Mas, por isso mesmo, vê caminhos por toda a parte. Mesmo onde os demais esbarram em muros ou montanhas, ele vê um caminho. Mas porque vê caminhos por toda a parte, também tem que abrir caminhos por toda a parte. Nem sempre com força brutal, às vezes, com força refinada. Como vê caminhos por toda a parte, ele próprio se encontra sempre numa encruzilhada. Nenhum momento pode saber o que trará o próximo. Transforma o existente em ruínas, não pelas ruínas em si, mas pelo caminho que passa através delas.
O caráter destrutivo não vive do sentimento de que a vida vale a pena ser vivida, e sim de que o suicídio não compensa.
Walter Benjamin, "Der Destruktive Charakter", in: G.S., IV , pp. 396-98.
Edição brasileira: BENJAMIN, Walter. Documentos de cultura, documentos de barbárie: escritos escolhidos. Seleção e apresentação Willi Bolle; tradução Celeste H.M.Ribeiro de Sousa (et al.). São Paulo, Cultrix/Edusp, 1986. pp.187-188.
sábado, 1 de outubro de 2011
segunda-feira, 27 de junho de 2011
Enquanto bebe o mate a gente vária
Sentemos ao gramado a desfrutar,
Maria, tua visita hebdomadária.
Forma comigo um par
Que isto aqui é fugaz
E a beleza, se efêmera, nos apraz
Simula, qual o mate a moça chupa,
Dando aos lábios sutil embocadura,
O sorver natural, quase sem culpa.
E sorve bem, ó cara!
Sabes, não é rotina
Ou já está perfunctório: continua,
Vai longe ainda a hedionda e triste sina
Atende, como os cães brejeiros brincam
Uns sobre os outros babando e rindo
(A boca usam mas os dentes não fincam)
Ó Maria, que lindo!
Que bela a Natureza!
Encanta-te co’esta imagem sublime
Abaixa tua defesa
Não será porventura encantador
Quando, como animais, rapaz e moça
Entregam-se ao primitivo amor?
Inda não há a louça
E o eventual rebento
Não há perturbações nem desagrados
Chega de fingimento
Maria, descanso ainda em indolência
Neste verde gramado; sem teus braços
Em mim agora envoltos, a dormência
É-me um triste embaraço.
O tempo nos apura
Mas o que nos é breve, se excitante,
Tanto mais assim dura.
Sentemos ao gramado a desfrutar,
Maria, tua visita hebdomadária.
Forma comigo um par
Que isto aqui é fugaz
E a beleza, se efêmera, nos apraz
Simula, qual o mate a moça chupa,
Dando aos lábios sutil embocadura,
O sorver natural, quase sem culpa.
E sorve bem, ó cara!
Sabes, não é rotina
Ou já está perfunctório: continua,
Vai longe ainda a hedionda e triste sina
Atende, como os cães brejeiros brincam
Uns sobre os outros babando e rindo
(A boca usam mas os dentes não fincam)
Ó Maria, que lindo!
Que bela a Natureza!
Encanta-te co’esta imagem sublime
Abaixa tua defesa
Não será porventura encantador
Quando, como animais, rapaz e moça
Entregam-se ao primitivo amor?
Inda não há a louça
E o eventual rebento
Não há perturbações nem desagrados
Chega de fingimento
Maria, descanso ainda em indolência
Neste verde gramado; sem teus braços
Em mim agora envoltos, a dormência
É-me um triste embaraço.
O tempo nos apura
Mas o que nos é breve, se excitante,
Tanto mais assim dura.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Questão de Etiqueta
Os moradores da zona sul do Rio não precisam mais dispensar vilipêndios aos viventes do morro: estão todos devidamente etiquetados e esquecidos em vala comum.
Assinar:
Postagens (Atom)